Por o Libertário
1. Introdução: A Máquina a Serviço do Povo?
O avanço das tecnologias de inteligência artificial, especialmente no campo da geração de conteúdos audiovisuais, tem levantado expectativas e temores entre comunicadores, ativistas e movimentos sociais. A promessa parece sedutora: com poucos recursos, qualquer coletivo popular pode produzir vídeos impactantes, simular cenários, personagens e vozes, com qualidade antes reservada a grandes corporações midiáticas. Mas essa facilidade traz armadilhas.
Este ensaio busca confrontar uma contradição central: até que ponto o uso de IA, ao tentar amplificar vozes populares, pode acabar substituindo-as por simulações? Em outras palavras, será que para representar a luta real estamos produzindo conteúdos falsos?
2. A Promessa de Democratização
É inegável que a IA oferece possibilidades inéditas:
- Barateamento radical da produção de conteúdo;
- Acesso à estética de alto nível, mesmo sem câmeras, atores ou roteiristas profissionais;
- Criação rápida de materiais educativos e mobilizadores, em múltiplos idiomas, com escala digital.
Isso representa, teoricamente, uma quebra de monopólio na produção simbólica. Movimentos antes marginalizados agora podem disputar espaço narrativo. As favelas, os acampamentos, as quebradas, os povos originários — todos poderiam ter, com IA, meios de expressão antes impensáveis.
3. O Risco da Estetização Sem Substância
Mas há um problema: a luta popular corre o risco de se transformar em estética, em marketing, em peça publicitária que agrada aos algoritmos, mas esvazia o conteúdo político. A lógica da viralização empurra os movimentos a “profissionalizarem” sua comunicação, mas isso frequentemente significa:
- Tornar o conteúdo mais “palatável” para o grande público;
- Abandonar a complexidade política em favor de slogans curtos;
- Trocar a vivência real por personagens sintéticos, mais “expressivos” ou “empáticos”.
Essa transformação não é neutra. Quando o inimigo é a classe dominante — e o objetivo é desnaturalizar a opressão —, a superficialidade é um veneno.
4. A Falsificação do Real: Simular o Povo é Apagar o Povo
Talvez a crítica mais aguda seja essa: a IA pode induzir movimentos populares a simular aquilo que deveriam escutar.
Exemplo: ao invés de dar voz a um trabalhador real, com seu rosto, sua voz, suas gaguejadas e pausas, produz-se um avatar de trabalhador, com dicção perfeita, expressão dramática e roteiro otimizado. O resultado parece mais “eficiente”, mas perde a verdade política do corpo real.
Isso gera:
- Deslocamento da experiência real: a dor é encenada, não vivida.
- Despolitização do discurso: a fala vira produto.
- Instrumentalização do povo: os oprimidos continuam sendo matéria-prima simbólica, não sujeitos políticos ativos.
Essa prática, mesmo que bem intencionada, replica a lógica colonial e elitista: alguém fala sobre o povo, não com o povo — ainda que agora usando uma máquina.
5. A Plataforma Também É o Campo de Batalha
Outro ponto crítico é que as ferramentas de IA são, em sua maioria, criadas, controladas e operadas por grandes corporações com laços profundos com o capital financeiro, o imperialismo digital e os complexos de segurança dos Estados Unidos e da Europa.
Ou seja:
- Usamos IA para combater estruturas de dominação utilizando a própria infraestrutura das estruturas de dominação.
- Todo dado usado na produção pode estar sendo absorvido, monetizado e retroalimentado por essas empresas.
- Há sempre o risco de censura invisível, despriorização algorítmica ou vigilância automatizada.
Portanto, usar IA não é neutro — é uma negociação com o inimigo, mesmo que tática.
6. O Corpo Não Pode Ser Substituído
É preciso reafirmar com firmeza: o corpo é central na luta política. O corpo do trabalhador, da mãe solo, do indígena, da juventude periférica. Com suas contradições, sua verdade, suas imperfeições.
Produzir um vídeo com uma mulher preta digital para falar de racismo não é um avanço se existe uma mulher preta real, viva, que pode dizer aquilo com sua própria voz. Ao contrário: é uma substituição, uma forma de apagamento, mesmo que involuntário.
A política nasce do risco da fala. A IA não assume esse risco. Só o povo assume.
7. Caminhos Éticos e Estratégicos
Isso não significa rejeitar totalmente a IA. Significa:
- Usá-la como meio, nunca como fim;
- Alfabetizar politicamente os coletivos sobre os limites da tecnologia;
- Priorizar conteúdos com presença real, mesmo que com menor qualidade técnica;
- Criar narrativas com a base, não por cima da base;
- Investir em projetos de IA comunitária, aberta, descentralizada.
8. Conclusão: A Luta É Real, Não Sintética
A luta popular é feita de corpos, de olhares, de dores que não cabem em roteiros pré-prontos ou avatares perfeitos. A IA pode ajudar — mas também pode transformar a insurreição em espetáculo, e o povo em produto.
A pergunta que deve guiar sempre é:
Estamos criando com o povo ou apenas sobre o povo?
Se for o segundo, então, ainda estamos do lado errado da história.